quinta-feira, 26 de março de 2015

A leitura e a escrita do mundo

Na nossa primeira aula de Conteúdos e Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa II, a professora nos surpreendeu com uma atividade inusitada. 
Entregou um texto de uma língua desconhecida por todos da sala, e propôs que fizéssemos sua leitura. O primeiro impacto foi assustador, como iríamos ler um texto se não dominamos a língua escrita?
Logo surge uma insegurança por não sermos capazes de decifrar o que está escrito, mas conforme Isabel Solé discursa sobre estratégias de leitura: "ler é ativar estratégias de um conhecimento existente para compreender o significado das palavras e atribuir sentindo ao texto". Então, o primeiro caminho para tentar decifrá-lo é analisar sua estrutura textual e seu gênero.
No que se refere ao exercício com um texto em alemão, percebemos, por meio de sua estrutura, que se tratava de uma carta comercial, em seguida, buscamos um repertório cultural para descobrir algumas palavras e seus significados, porém não foi suficiente para realizarmos uma leitura compreensiva do texto, pois não dominamos a língua alemã.
Ao aprofundar a reflexão sobre o que é ler, a partir de Paulo Freire, em “A importância do ato de ler”, paro para pensar e viajo em minha imaginação, relembrando como fui inserida no mundo da leitura pela minha professora Ana, no jardim de infância. Por sinal, foi um pouco tarde, pelo fato de meus pais não terem a vivência nesse universo enriquecedor, e, como sabemos, o comportamento familiar é uma importante influência para estimular os hábitos dos filhos.
Voltando ao meu primeiro contato com a leitura no jardim de infância, a professora Ana lia quase todos os dias histórias infantis. Eu achava o máximo esses momentos e ficava encantada com as histórias. Depois, ela deixava os alunos irem ao cantinho da leitura para manusear os livros mesmo sem sabermos ler. Compreendo essa vivência, com base em Paulo Freire, quando o autor explica que a interação social com o outro e com o meio tem fundamental importância para o desenvolvimento do indivíduo.
A proposta da tia Ana era boa, porque eu aproveitava esses momentos para viajar em minha imaginação, criando e recriando, a partir do que tinha escutado como leitora/ouvinte e das ilustrações dos livros, minhas próprias histórias. Porém, percebo que a professora poderia ter utilizado outras metodologias para o desenvolvimento da oralidade e consequentemente da leitura, como, por exemplo, recursos da arte de contar histórias, que popularmente chamamos de “contação”.
Portanto, a leitura dos livros é um recurso pedagógico para produzir a linguagem escrita dos alunos, e a contação, realizada pelo professor ou pelos próprios alunos, desenvolve uma linguagem oral, sendo que ambas são essenciais para a formação. É possível, inclusive, enriquecer essas atividades, utilizando objetos visuais e sonoros, como fantoches, dedoches, entre outros. Recorro aqui novamente a Freire, quando o autor afirma que a alfabetização é a criação da expressão escrita da expressão oral, sendo o educando o único que consegue fazer sua própria criação, dando sentido ao seu aprendizado, no momento da alfabetização.
Ao entrar na Educação Fundamental, minha professora da primeira série continuava a trabalhar com os livros de histórias infantis como suporte textual e utilizava essa leitura como base para construir recontos feitos pelos alunos, sendo ela a escriba. Achava interessante, pois era uma maneira dela nos envolver com a leitura mais profundamente.
Entretanto, hoje, com base nos estudos que desenvolvemos no curso de Pedagogia, avalio que minha professora poderia trabalhar com outros gêneros textuais, e com outros suportes textuais, não focando somente em histórias de livros infantis, tais como os textos de jornais e revistas, como as notícias, ou outros gêneros do dia a dia, como bilhetes entre outros. Afinal, a escola é o lugar onde temos um contato mais formal com o mundo da leitura e escrita, assim os alunos não podem ser limitados a ter o aprendizado com a diversidade textual. Pasquier e Dolz defendem que os alunos devem ser inseridos e orientados a produzirem textos desde cedo, pois é uma atividade complexa que exige diversas capacidades, e, por sinal, é uma aprendizagem lenta e prolongada, sendo essa aprendizagem voltada para o ensino da escrita, por meio da diversidade textual.
Lembro-me quando a professora da segunda série ensinou-nos diferentes gêneros textuais. Foi produtivo compreender que existiam outros textos, não apenas os das histórias infantis. Chegava a casa da escola, querendo anotar as receitas que minha mãe fazia para deixá-las guardadas em um caderninho, fazer listas de compras, convites manuais, entre outros. Segundo Pasquier e Dolz, isso significa que o aluno tem que ser consciente da diversidade textual e aprender escrever textos, conforme sua necessidade da situação particular de comunicação.
E quando essa mesma professora da segunda série propôs escrever uma carta para um aluno de outra escola de outra cidade foi muito interessante, queria me dedicar ao máximo a essa carta, escrever bonito, com palavras e estrutura correta, assuntos da minha realidade, do meu mundo, para me comunicar com outra pessoa que sequer conhecia. Depois, a ansiedade em aguardar sua devolutiva, e ao receber, tentar ler sozinha, percebendo que era capaz de escrever e ler. Afinal, como nos lembra Freire, ler não é decodificar e sim atribuir sentido ao texto, e já estava conseguindo atribuir sentido às minhas leituras. Freire nos ensina que o processo de alfabetização deve ser carregado de significação da experiência existencial do educando, com isso, minha professora estava incentivando a escrever de maneira significativa por meio da minha realidade.
Percebo que ainda se confunde o processo de ensino/aprendizado nas escolas com o fato de ensinar os alunos a ler e escrever, porém o processo de leitura vai além da simples leitura de um texto ou somente a alfabetização. Os alunos têm que aprender a dar sentido às suas leituras, entender, analisar, refletir e questionar. Por isso, Paulo Freire é tão atual, uma vez que o autor enfatiza que a leitura da palavra vai além da leitura do mundo, mas de sua maneira de transformar a leitura por meio de nossa prática consciente.
Para isso, os professores precisam compreender a importância do ato de ler, de acordo com o que recomenda Freire, a fim de internalizar e praticar constantemente esse processo de formação de leitores competentes, auxiliar os alunos a construírem seu saber e o gosto pela leitura. Utilizar diferentes suportes, gêneros, estruturas textuais, sequências didáticas, enfim formar leitores competentes e de excelência e não mais alfabetos funcionais.
Com o exercício de fazer a leitura da carta em alemão, ponho-me no lugar dos pequenos alunos que quando estão sendo alfabetizados, em alguns casos, não têm um conhecimento e repertório sobre os diferentes gêneros, tipos e estruturas textuais, e quando se deparam com frases ou textos se sentem perdidos, tentando decifrar as palavras, sem atribuir-lhes sentido. Por isso, é importante que os alunos tenham contato desde cedo com os diferentes textos, sem duvidar de suas capacidades de compreensão. Assim, em seu processo de alfabetização, possam ter uma experiência e entrosamento com o mundo da leitura, tornando-se indivíduos leitores competentes, críticos e atuantes na sociedade. Fundamentando esta reflexão em Paulo Freire cito que:
Não há transição que não implique um ponto de partida, um processo e um ponto de chegada. Todo amanhã se cria num ontem, através de um hoje. De modo que o nosso futuro baseia-se no passado e se corporifica no presente. Temos de saber o que fomos e o que somos, para sabermos o que seremos.
Segundo Madalena Freire, o aprendizado acontece com a troca de conhecimentos constante dos indivíduos. Aprendemos a pensar com o outro, a ler construindo novas hipóteses na interação com o outro, a escrever, organizando nossas hipóteses com a do outro, a refletir estruturando nossas hipóteses na interação e na troca com o grupo, sendo função do educador interagir com os alunos para orientar essa troca, buscando esse conhecimento. Vivemos em uma sociedade onde necessitamos do sociointeracionismo, principalmente em ambientes escolares, pois precisamos da interação com o outro e com o meio para se desenvolver plenamente e se preparar para conviver em sociedade.
Conforme a leitura de Madalena Freire, “A aventura de ensinar, criar e educar”, o educador é um leitor, escritor, pesquisador, que faz ciência da educação. Desse modo, lê a realidade das pessoas e as suas, registra seu fazer pedagógico, questionando e perguntando sobre as hipóteses do seu pensar. O educador precisa rever seus conceitos e posturas, não basta cobrar os alunos e não desempenhar seu papel com qualidade.
Ainda de acordo com Madalena Freire, quando escrevemos desenvolvemos nossa capacidade reflexiva sobre o que sabemos e o que ainda não dominamos. E nesse momento de escrever faz o educador formular perguntas, levantar hipóteses. Nesse exercício, aprende tanto a formulá-las, quanto a respondê-las, e essa tarefa incentiva pensar, pesquisar e aprender. Esse é o papel de todo educador. O registro de sua reflexão significa abrir-se para seu processo de aprendizagem.
Diante do exposto, foi possível compreender que, na atividade realizada sobre a “carta em alemão”, no primeiro momento, a teoria utilizada pela professora foi o sociointeracionismo, em que cada aluno da sala podia socializar seu conhecimento sobre algo contido na carta, descobrindo algumas pistas.
A professora de Conteúdos e Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa II teve a intenção de fazer com que os alunos desenvolvessem as habilidades de ler, escrever e pesquisar, fazendo uma síntese reflexiva de seus registros, a cada etapa das tarefas solicitadas. Portanto, foi utilizada a teoria do construtivismo, pois o saber não é algo concluído, estamos sempre aprendendo e construindo novos conhecimentos e a cada devolutiva da atividade tínhamos a oportunidade de ler, pesquisar e aperfeiçoar nossa reflexão e escrita.
Portanto, concluo que mergulhamos em um processo de leitura e escrita que nos ajudou a conhecer melhor o mundo da didática do ensino da língua portuguesa.

Ariellen de Araujo Gois (7º semestre Pedagogia PARFOR)

segunda-feira, 23 de março de 2015

A leitura pela leitura, pelo prazer de ler

Na nossa primeira aula de Conteúdos e Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa II, em 09 de fevereiro de 2015, a professora Rosana nos surpreendeu com uma atividade inusitada: nos entregou um texto em uma língua desconhecida para que fizéssemos a leitura.
A estratégia didática utilizada pela professora, para nos ajudar a compreender o exercício, foi a organização do trabalho em grupos de alunos, em que obtivemos informações. E dos resultados da interação das ideias com o grupo, em que participava, surgiu uma leitura coletiva do texto. Trabalhar em grupo abriu uma percepção para a associação da situação do texto que líamos e de como me senti: como uma criança incapaz de ler e decodificar um texto com palavras estranhas, não reconhecendo a leitura e com dificuldades.
Ler é construir sentido para o que se está lendo. Sobre este aspecto Paulo Freire nos explica que o conhecimento de mundo é a nossa base para a compreensão da leitura. Percebo que a formulação de estratégias para esta atividade envolveu a identificação da língua do texto, que não era o Português e sim o alemão; o reconhecimento do gênero carta, os nomes, a cidade e de como foi enviada para a pessoa e de todo o ambiente em que foi elaborada.
Considerei importante ressaltar a relevância das ferramentas de interpretação que são necessárias para a compreensão da linguagem escrita para a transformação do processo no desenvolvimento da leitura, porque compreendi que a prática de ler é muito importante para buscar as informações que precisamos nas entrelinhas. Posso embasar esta minha compreensão em Paulo Freire, em “A importância do ato de ler”, quando o autor explica que a leitura está envolvida na prática de ler, de interpretar o que lemos, de escrever, de contar, de aumentar os conhecimentos que já temos e de conhecer o que ainda não conhecemos, para melhor interpretar o que acontece na nossa realidade, compreender o sentido das mensagens orais.
Em sala de aula, foi preciso que a professora Rosana Pontes interviesse para unir as ideias de todos os alunos e estimulá-los a perceber o que estava acontecendo ao seu redor: decifrar uma carta a uma vaga de emprego para uma empresa de transportes.
Sendo assim, para mim, o que faltou foi ter um entendimento com o texto e, nesse processo, precisamos pensar sentir e querer alcançar uma aprendizagem de relações durante a leitura, a cada palavra, descobrindo pistas para decodificação, ou seja, tudo ao mesmo tempo, pois a escrita é um exercício de desvendar códigos para o conhecimento e construção do sentido do texto, seja livro, jornal, revista ou carta.
Analisar um texto exige reflexão crítica, e, antes de tudo, exige prática, treino, experiência. Por isso, mais uma vez Paulo Freire nos ensina que é essencial que saibamos valorizar a cultura popular em que o aluno está inserido, partindo desta cultura, e procurando aprofundar seus conhecimentos, para que participe do processo permanente da sua libertação.
O exercício com a carta em alemão que realizamos e a leitura de “A importância do ato de ler” fizeram-me recordar de meu processo inicial de alfabetização, como era a minha infância, meus momentos de leitura com meus pais e irmãos mais velhos.
Morávamos em uma casa grande com amplos espaços em todos os cômodos e ao fundo um grande quintal com uma bela árvore frutífera. Nela, cresci e caminhava pelo mundo infantil real, descobrindo perspectivas para o conhecimento das primeiras letras. Me reunia com minhas amigas de infância para brincarmos de professora e alunos, e a lousa, o giz, o caderno e o lápis eram os objetos preciosos. 
Eram bons tempos de infância... Bom recordar sobre a escola, que ficava um pouco distante de minha casa. Minha mãe me arrumava, com cabelo muito bem penteado preso, com uniforme impecável, caminhava com meus irmãos mais velhos em direção à escola, percorrendo caminhos tortuosos e com grande movimento de pessoas pela rua afora. Era um vai e vem, em que todos andavam apressados atravessando entre calçadas para irem a mercados, bancos e até padarias, passando entre ruas e avenidas. No meio do caminho, me encontrava com minhas amigas de escola, também me alegrava no trajeto ao apreciar as belas árvores compridas e imensas, e desse modo caminhava o meu conhecimento com novo aprendizado pelo mundo afora. 
Assim, como Paulo Freire relaciona sua infância e seu conhecimento prévio para a iniciação à leitura, destacando que a leitura de mundo antecede a leitura da palavra, posso reconhecer que meu mundo infantil antes da alfabetização já era culturalmente rico, com um amplo vocabulário que poderia ser explorado na aprendizagem da escrita.
Lembro-me que, ao chegar à escola, aprendi a ler e escrever com o método de alfabetização com cartilha e memorização. Esse era o método tradicional de alfabetização: o ensino sistemático de aprender o be a bá, alfabetizando, soletrando as primeiras palavras, separando sílabas. As lições eram feitas em caderno de caligrafia e foi assim que me familiarizei com as primeiras letras.
Já na escola primária, aos sete anos idade, foi um pouco diferente. Tenho boas recordações de apreciar as vivências com a professora do ensino fundamental, pelo fato dela sempre não se contentar em aplicar apenas as lições impostas pelo livro didático, mas lia e relia os textos dos livros para nos instruirmos e muitos deles sem expectativas de aprendizagem, mas no final a professora acabava nos ajudando nas lições do dia a dia. Retomando aqui Paulo Freire, na alfabetização não nos interessa transferir frases e textos para ir lendo sem entender. A reconstrução consciente em qualquer nível exige o fato de necessitar da ajuda do educador em qualquer ação pedagógica.
A professora que cito acima era muito rígida e, ao mesmo tempo, muito doce. Uma coisa importante que eu levei para as minhas aulas de Português é que ela lançava as questões, mas eram os alunos que faziam delas aulas. Era bacana, porque cada um crescia e ela ajudava cada um a crescer. Na adolescência, gostava de ler livros de literatura clássica como (O Cortiço) Aluísio Azevedo, (Vidas Secas) Graciliano Ramos, que a professora escolhia e eu apreciava a leitura. Além disso, amava ler obras de Agatha Christie, histórias de suspenses e policiais, e romances como Sabrina, livros da época etc. Leituras que mergulhavam na história da idade em que subia na árvore que havia no quintal da casa para ler.
Essa experiência mostrou-me que há um universo inteiro dentro de cada palavra e que, quanto mais a gente conhece as palavras, mais conhecimento adquirimos. O que a gente diz é muito sério, porque é o que o outro vai ouvir. E se a gente diz uma coisa errada, não clara, a informação se perde. Por isso, Paulo Freire fala da “palavramundo” que significa a relação dinâmica entre a leitura da palavra e a leitura da realidade, em que nós encontramos a realidade na globalização, o desenvolvimento do mundo na tematização.
No ensino fundamental que frequentei, para conhecer as palavras, eram utilizados os textos ditados, e qualquer erro de escrita era motivo para o aluno escrever a mesma palavra por várias vezes. Nos livros didáticos, eram extraídos trechos de livros para que, após a leitura, respondêssemos perguntas feitas para decorar para prova. A sala de aula era toda decorada de trabalhos com cartazes feitos por alunos elaborados juntos com professora de Português. Quanto aos métodos de ensino, eram completamente diferentes dos contemporâneos. Com práticas de textos lidos, os exercícios que são retirados, copiados ou ditados pela professora sem muitos diálogos a respeito, somente para os alunos complementarem as frases. Esses métodos que descrevo acima são o que Paulo Freire classifica como: “educação bancária”, em que não há diálogo. Ou seja, o autor nos leva à compreensão da prática democrática e crítica da leitura do mundo e da palavra, em que a leitura não deve ser memorizada mecanicamente, mas ser desafiadora e que nos ajude a pensar e analisar a realidade em que vivemos.
Para Paulo Freire, na educação bancária, a leitura estava reduzida à metodologia tradicional, à prática assistemática em que os textos eram “lições de leitura”. Momento em que professore e aluno não interagiam e dialogavam em sala de aula.
Retornando ao exercício com a carta em alemão que realizamos, compreendo que o objetivo era que observássemos quais são as finalidades de se criar estratégias no exercício que, neste caso, foi reconhecer quais são os caminhos da linguagem escrita, e então compreender como desenvolver uma prática social de leitura.
Por isso, Paulo Freire analisa a ideia de que: “A biblioteca popular como centro cultural e não como um depósito silencioso de livros, é vista como um fator fundamental para o aperfeiçoamento e a intensificação de uma forma correta de ler o texto em relação com o contexto” (FREIRE, 1989, p.38).
Diante de recursos didáticos adequados nas salas de aula, os alunos se tornam mais participativos, principalmente com a utilização de um círculo de conversa, promovendo interação professor/aluno, com trocas de ideias no concreto. Construir conhecimento, aprendendo juntos com a utilização do diálogo, em salas de aulas. É isso que Paulo Freire denomina “círculo de cultura”, em que o diálogo é a mais importante ferramenta didática.
Segundo Paulo Freire, a alfabetização de adultos deve estar diretamente relacionada ao cotidiano do trabalhador. Desta forma, o adulto deve conhecer sua realidade de mundo para poder inserir-se de forma crítica e atuante na vida social e política. Transpondo este conceito para a educação de crianças, a alfabetização deve estar diretamente relacionada com o contexto da vida do aluno, a partir de seu conhecimento de mundo.
Compreender a leitura e não saber ler e escrever depende totalmente da alfabetização e escolarização. Sendo assim, as instituições escolares deverão impor variedades no ensino com contextos e objetivos específicos, com o padrão formal e informal, para vencer o fracasso na instrução escolar em todo o país.
Atualmente, o mais importante na educação é saber ler e escrever. Portanto, a criança precisa ser alfabetizada lendo e escrevendo até os oito anos de idade, a fim de ser capaz de analisar e compreender um texto, fazer crítica e refletir. Sendo que, antes de tudo, exige prática, treino, experiência levar em conta que o aluno está na escola para aprender e interpretar o texto com a atividade em que está aprendendo, e o professor precisa articular a teoria com a prática pedagógica, levando-o à construção de seus conhecimentos. E qualquer pessoa, mesmo sem grandes conhecimentos técnicos sobre o assunto, pode observar que os indivíduos parecem ver, ouvir e sentir de forma muito diferente uns dos outras, mesmo que estejam no mesmo lugar, cercados pelas mesmas coisas, e nas mesmas condições.
A alfabetização é um processo de ensino-aprendizagem amplo, longo e as formas de construir o saber e desenvolver habilidades no ler e escrever são inúmeras. Nesse sentido, conforme nos recomenda Freire, educador e educando precisam estar juntos, um ajudando o outro nas atividades e principalmente na dificuldade, tendo como propósito a capacidade de um domínio seguro da leitura e da escrita, devendo ser reconhecidas as experiências, através de bagagens vindas com práticas sociais familiares. Cada indivíduo tem seu aprendizado diferenciado adquirido de conhecimentos do cotidiano e a escola, por sua vez, tem o dever de motivar, incentivar o educando a ter o prazer de gostar de ler e escrever, garantindo uma formação digna para um futuro cidadão para, então, poder viver socialmente.
Para Paulo Freire, uma das primordiais tarefas da Pedagogia crítica radical libertadora é trabalhar a legitimidade do sonho ético, político, da superação da realidade injusta. “É trabalhar a genuidade dessa força da ideologia que estimula a imobilidade dos oprimidos e sua acomodação à realidade injusta necessária ao movimento dos dominadores”. Devemos ter sempre um olhar especial para cada situação.
Seguindo essa linha do pensamento, não podemos deixar de citar Paulo Freire. Para ele, a alfabetização deve ser parte do processo, por meio do qual, além de aprender a ler e escrever, surge a responsabilidade pela transformação social e o processo educativo, devendo colaborar com o desenvolvimento da consciência crítica dos educandos.
Acrescento ainda a este texto as ideias de Madalena Freire, no tocante à prática do registro pelo professor. A autora explica que o registro reflexivo das atividades cotidianas ajuda o professor a encontrar algumas das respostas para as suas dúvidas profissionais, bem como a ter uma troca de experiências, ideias e conhecimentos.
Para Madalena Freire, observar uma situação pedagógica é "olhá-la, fitá-la, mirá-la, admirá-la, para ser iluminada por ela. Observar uma situação pedagógica não é vigiá-la, mas sim fazer vigília por ela", isto é, estar e permanecer acordado por ela, na cumplicidade da construção do projeto, na cumplicidade pedagógica.
Por todos os aspectos apresentados neste texto, que partiram de um simples exercício de leitura com a carta em alemão e pela reflexão que consegui desenvolver, com base em Paulo Freire e Madalena Freire, acredito que todas as pessoas gostariam de estar vivendo em um mundo onde tudo fosse maravilhoso. Nesse mundo ideal, estaríamos felizes e satisfeitos conosco mesmos, com as pessoas à nossa volta e com tudo o que somos e com tudo o que temos.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

FREIRE, Paulo. A Importância do Ato de Ler: em três artigos que se completam. SP: Cortez, 1988. 80 p.

Dora Ferreira de Moura 
(7º semestre Pedagogia PARFOR)

O desenvolvimento humano através da leitura e da reflexão

Na nossa primeira aula de Conteúdos e Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa II, a professora nos surpreendeu com uma atividade inusitada. No primeiro momento, pensamos que era uma pegadinha. Como ler um texto escrito em alemão?
Só com orientação da professora, e em grupo, foi possível reunir algumas pistas sobre o assunto e tipo de texto a que a atividade se referia. Depois do susto, em continuação à atividade proposta, refletimos sobre o significado de ler, não de uma forma simplista, mas em seu sentido mais completo. O que exigiu maior envolvimento com o assunto e, buscando responder inúmeras indagações, é que se tornou possível discorrer sobre o tema.
Em um sentido generalizado “ler” significa decodificar as letras para formar palavras. Contudo, após a realização da leitura da carta em alemão, foi possível perceber que não é apenas isso. Ler significa, na verdade, entender, dar sentido a algo. Para que, só então, aconteça a comunicação entre o leitor e o objeto de leitura. Sendo assim, para dar sentido a uma determinada leitura, precisamos recorrer a inúmeros recursos que dispomos, entre eles, algum conhecimento prévio sobre a língua escrita, sobre sua estrutura, sobre seus gêneros, etc.. Ou seja, fazer inferências para eliminar aquilo que supomos não ser o correto e nos aproximarmos da informação que estamos buscamos. E foi exatamente esse percurso que percorri no exercício proposto.
Essas conjecturas causam certo desconforto por não termos o domínio do código em questão e, mesmo com associações e reflexões sobre esta leitura, ela se torna uma tentativa bastante frustrante. Consegui com minha bagagem descobrir que a língua utilizada foi o Alemão – descartei o Inglês pela presença de acentos e optei pelo Alemão pelo tamanho das palavras e as terminações em “EN” –; que o gênero usado era uma carta eletrônica – pela presença do endereço eletrônico no cabeçalho do texto e considerei seu formato de carta.
Desse modo, concluí que as descobertas realizadas sobre a leitura foram positivas, no sentido de aprofundar o entendimento sobre o significado de ler; por mostrar que não precisamos dominar todos os códigos para realizarmos certa leitura; que o conhecimento que dispomos pode ser relevante para novas descobertas e, principalmente, ao selecionar materiais didáticos, precisamos avaliar se são coerentes com o entendimento de nosso alunado – não descartando seus conhecimentos, tampouco anulando os desafios que o mundo da leitura deve proporcionar para que realmente haja a realização da conquista a cada novo conhecimento.
A leitura realizada sobre “A importância do ato de ler” aprofunda a reflexão sobre o real sentido da palavra “ler” que, segundo Paulo Freire, surge na vida do indivíduo mesmo antes de seus primeiros contatos com a língua escrita. Ao contrário do que se pensava, o ato de ler não deve ser exigido ou esperado após o encontro do aluno com o mundo das letras, das palavras, dos textos, mas acontecer desde seus primeiros anos de vida, por meio de sua interação com o outro e o mundo, suas percepções, observações, descrições. Enfim, Freire nos ensina que toda experiência vivida é uma rica bagagem de leituras que a pessoa tem de si, do outro e de tudo que está à sua volta. Por isso, essa “leitura de mundo” não pode ser ignorada, mas sim aproveitada para as novas descobertas.
Essas aprendizagens são o ponto de partida para o desenvolvimento do alfabetizando no todo, pois aprender a ler formalmente implica compreender o que essa atitude significará e porque ela se faz necessária. Daí a importância de dar sentido a essa experiência, fazê-la viva, partindo do real, do que se viu, ouviu, sentiu... viveu.
Com base em Freire, posso afirmar que entender esse aspecto modifica completamente o comportamento daquele que ensina, já que deve considerar as vivências de seu aprendiz. Ter sensibilidade é um fator primordial nessa tarefa, porque significa muito mais do que a realização de um simples trabalho. Significa promover uma aprendizagem permanente, inquietante, instigadora que motive cada vez mais seu aluno a aprender e a continuar suas próprias buscas. Imprimir esse desejo ao educando implica devoção, constância, participação, amor, ou seja, princípios pedagógicos intensamente defendidos por Freire.
As tarefas do educador, que se embasa em princípios verdadeiramente pedagógicos, como nos explica Freire, deixam de ser apenas planejamentos, métodos, registros e avaliações e se tornam trocas diárias, repletas de prazer, em busca de resolver todas as situações problemáticas que a vida nos proporciona, nos tornando melhores, maduros, plenos. Em conformidade com o pensamento de Freire, o educador precisa ser e estar consciente de que seu papel é único e intransferível e de que ensinar a grafar ou decodificar uma letra, palavra ou texto pode ser feito por qualquer pessoa que talvez nem conheça todas as regras da Língua Portuguesa e suas subdivisões. O educador preparado e consciente precisa ir muito além de ensinar a grafia e os códigos, precisa ensinar o sentido amplo e complexo do ato de ler. E isso vimos que é possível, e não seremos os primeiros, pois o referido autor realizou esse trabalho, reformulou nosso papel, repensou a nossa prática e conquistou nosso respeito e admiração pelo êxito de suas descobertas e conquistas.
Refletir sobre o ato de ler longe do conhecimento e uso de técnicas não é confortável para nós, estudantes da área, por todas as intempéries que abarcam essa carreira. Mas, só em pensar que o mundo idealizado pode existir de fato e nossa participação é fundamental para que aconteça é, no mínimo, atraente para os que amam essa profissão, desafiadora e inevitável, como eu. Ao mesmo tempo em que causa medo, pela responsabilidade que temos, dá também a sensação de poder e encorajamento para persistir. E penso qual será minha sensação ao realizar um décimo do que o autor experimentou.
Caminho para os nove anos na área da educação e até vivi grandes momentos: o da descoberta pela vocação, o do amor pela prática, o de frustrações pelas atitudes dos demais participantes envolvidos, o da busca pela formação. Contudo, os que mais me provocaram foram os constrangimentos causados após leituras como essa. Leituras que me levam a repensar minhas atitudes em sala, as técnicas adotadas, as avaliações precipitadas, a falta de conhecimento sobre algo que deveria saber. É aqui que eu cresço, amadureço, modifico.
O desafio que me motiva a permanecer nesta caminhada vem do desejo de proporcionar aos alunos aquilo que não tive durante minha escolarização – sentido. Momentos importantes para a construção do ser no universo e do qual não tenho memória alguma, que tristeza! Ler a experiência de Paulo Freire em seu período de alfabetização me causa inveja, assumo. Mas não é só, também me encoraja muito a lutar e me prepara para ser uma profissional diferenciada com objetivos que se estendem para além de aquisições mesquinhas, me remetem à valorização da pessoa, enquanto indivíduo de direitos, como também deveres e minha meta é a de promover o equilíbrio entre esses dois conceitos cruciais, fazendo com que as crianças sob minha responsabilidade conheçam seus direitos e realizem por si só os seus deveres para, então, com autonomia, conquistarem seu espaço e desfrutar dele.
Toda conquista tem desgaste, embate, desequilíbrio, indagações levando ao pavor os atuantes na área da educação que “preguiçosamente” vão seguindo conformados em permanecerem apáticos, mesmo tendo à sua volta recursos capazes de transformar esse cenário de fracasso no ensino. Considerando que a vida em sociedade requer comunicação entre seus membros e que a comunicação requer conhecimento do código usado para que haja o entendimento entre ambos. Todos os envolvidos devem ter o domínio desse objeto para a concretização de seus objetivos. E isso é muito bem colocado nos textos lidos de Madalena Freire: “A aventura de ensinar, criar e educar” e “Importância e função do Registro escrito, da Reflexão”.
Segundo a autora, as ações de ensinar criar e educar são vistas como aventuras, porque requerem espírito desbravador por parte do docente que, inconformado à apatia de seu aluno frente aos conteúdos propostos, vê-se em constante desafio de promover um ensino eficiente e desejado. Para isso, ela norteia a prática do ensino-aprendizagem com todas as ações necessárias, não apenas para o êxito do aluno, mas também para a satisfação do professor em participar efetivamente dessa conquista.
Madalena Freire lembra a todo instante que as ações pedagógicas devem ser encaradas como instrumentos necessários para obtenção dos objetivos propostos, devendo ser utilizados em todas as etapas do ensino, ao contrário do que vimos no exercício “carta em alemão”. O exercício nos mostrou que se o professor desconsiderar completamente o grau de aprendizagem do aluno, revelará claramente a sua falta de sensibilidade que, notadamente não planejou aquela atividade e, consequentemente, fará uma péssima avaliação, e não levará o educando à aquisição de bons resultados.
Já em seu segundo texto, Madalena Freire nos convida, quase que “gritando”, para a responsabilidade da reflexão e do registro escrito, evidenciando sua importância durante todo o processo do fazer pedagógico. Tais ações são imprescindíveis no cotidiano do educador, por levá-lo a repensar sua prática, revelar as possíveis mudanças, diminuir as surpresas, fugir dos riscos, armazenar de modo concreto esses momentos que fazem parte da nossa história e trazem a possibilidade de movimento dentro desse contexto, demonstrando que refletir a partir dos registros implica estar em constante aprendizado por exigir cada vez mais conhecimento para sua ordenação e organização.
Para concluir, quero salientar que enquanto os textos de Madalena Freire eram lidos e discutidos em sala, relembrei os conceitos teóricos de Piaget, Assimilação e Acomodação, embora a autora tenha usado como base de seus estudos conceitos metodológicos de Vygotsky. Pelos seguintes motivos: quando nos deparamos com uma nova situação de aprendizagem, entramos em um estado de desequilíbrio, até que organizemos nossos conhecimentos anteriores para, só então, assimilarmos algo novo e retornarmos ao equilíbrio novamente, tendo dessa forma acomodado mais um aprendizado. Para nos aprofundarmos em um determinado conhecimento, precisamos do exercício, da repetição ordenada e organizada para que avancemos cognitivamente diante das novas dificuldades que vão se apresentando e, assim, nos tornemos capazes de correspondê-las. O que serviu para reforçar as diretrizes apregoadas pela autora, bem como para ajudar a entender as dificuldades que tivemos para realizar esta atividade de leitura, escrita e reflexão.

Edina de Oliveira (7º semestre Pedagogia PARFOR)

domingo, 22 de março de 2015

Diante do Novo: desafios didáticos da leitura e da escrita

Na nossa primeira aula de Conteúdos e Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa II, a professora nos surpreendeu com uma atividade inusitada: solicitou que realizássemos a leitura de um texto em língua alemã. A surpresa foi geral.
Com esta atividade, fiquei, a princípio, totalmente desolada. Aliviada fiquei, ao formarmos os grupos. Então, iniciamos um diálogo relacionado ao texto, e foi uma sensação de conforto, porque poderíamos discutir e tirar as dúvidas que tínhamos. Percebemos de imediato que, apesar de termos um pouco de conhecimento de algumas palavras, isso não era o suficiente para continuarmos a leitura e conseguirmos alcançar êxito.
Para realizar a leitura do texto, usamos algumas estratégias como, por exemplo, o que aprendemos no primeiro semestre, lendo Luiz Antônio Marcushi: “todo gênero textual tem uma estrutura mais ou menos definida”. Por isso, foi fácil reconhecer que estávamos diante de uma carta. Diante de uma nova língua, decodificamos com o que conhecemos. No entanto, para podermos realizar uma leitura compreensiva faltou o domínio da língua.
A fim de aprofundarmos nossa reflexão sobre leitura e escrita, a partir da atividade realizada com a carta em alemão, a professora nos propôs a leitura de “A importância do ato de ler”, de Paulo Freire. Essa leitura conduziu-me a uma retrospectiva de minha trajetória até aqui.
Ao iniciar o Curso de Pedagogia, senti-me apenas como um peixe fora d’água. Crescera ouvindo que ensino superior não era para qualquer um, somente para pessoas de posse e da elite, que possuíssem subsídios financeiros para tal ato, e ali estava eu numa sala de aula, cursando Pedagogia, aprendendo a aprender a ensinar.
Confesso que antes de começarem as aulas, tive que me preparar psicologicamente. Afinal, iria me deparar com o desconhecido, algo muito difícil por mais que tentasse. Em meu interior ocorria uma mistura de sensações, mas a que falava mais alto era a Ansiedade.
Na época, trabalhava numa creche de Ensino Infantil. Ausentes os recursos tecnológicos, ou seja, não havia computador, o que me impossibilitava de obter mais informações sobre o curso, bem como o caminho que iria traçar ao longo destes oito semestres. A fim de obter mais informações, recorri às professoras de Educação Infantil e coordenadoras que visitavam a creche, porém suas respostas eram muito vagas.
Em uma dessas perguntas, uma das coordenadoras da Sido (Secretaria de Educação do município de São Vicente) comentou que os estudos em Pedagogia consistiam em teorias. Algo que não me ajudou muito, vez que surgiram mais perguntas em minha mente. Afinal, o que seria Teoria?
Continuei indecisa, e buscava outras formas para achar respostas de minhas dúvidas que eram muitas. Sempre tive o hábito de passar em livrarias. Quando viajo para Minas, paro em uma livraria específica localizada na rodoviária de Tietê, em São Paulo. Como era de costume, sempre que passava gostava de apreciar as novidades, naquele dia não seria diferente. Ao entrar, observei calmamente e fui em direção de um livro muito diferente dos que já estava acostumada a ler, mas que ao mesmo tempo me pareceu familiar e que talvez pudesse me esclarecer ou de alguma forma minimizar as tantas dúvidas que passavam pela minha mente. Afinal de contas, a época de escola e de alfabetização o tempo fez o papel de afastar da gente tais lembranças. Momento este em que pensei: “Quem sabe este livro poderia diminuir minhas dúvidas, mesmo que pouco, seria o suficiente para me confortar da sensação do novo!”.
Ao entrar no ônibus, comecei a leitura e sem perceber já havia lido quase metade do livro, chegando a meu destino o guardei. E confesso que, às vezes, por alguns momentos vividos, me vinham lembranças das palavras contidas naqueles capítulos que diziam sobre algo que muito me interessava, mas eu ainda era muito leiga para entender o significado da tal leitura.
Primeiro dia de aula, fomos recebidos pelos profissionais especializados da Educação nos preparando para novos conhecimentos. Como imaginava, foi complicado compreender o significado de cada tema abordado. Nos três primeiros semestres, o meu maior obstáculo foi a aula de Informática, pois a cada aula era dominada pela ansiedade, chegando a acelerar meu coração. Esta situação me fazia lembrar de minha infância, no início de alfabetização. Daquela professora que não perdoava erros, também de outras compreensivas que facilitavam nosso BEABA, mas todas com os mesmos objetivos: palavras, leituras, ditados, e sempre correto.
Nossos momentos felizes eram no horário do recreio, corríamos discretamente pelos corredores da escola, brincando de pega-pega, ou até mesmo de cobra cega, amarelinha e... Víamos os pássaros quando pousavam no jardim da escola e do beija-flor que adorava as flores.
Ao chegarmos a casa, eu e meus irmãos éramos acolhidos pela minha querida e carinhosa mãe nos ajudando nas lições de casa e também a formar palavras e conhecimento de novas palavras.
Ela nunca tinha frequentado escola, porém sabia ler e escrever e sua leitura foi através do catecismo que era obrigada a frequentar na igreja católica. Nesse mesmo local, aprendiam a leitura através da bíblia sagrada. Após a lição de casa, íamos jantar, fazer oração como era de costume, mas antes a leitura da bíblia sagrada.
Na maioria das noites, meus pais com seus vizinhos e compadres ficavam contando causos, noite após noite, lembranças inesquecíveis das rodas de conversa no sítio do meu avô. Morria de medo, quando falavam sobre fatos reais acontecidos perto de lá, num lago próximo da casa. Histórias assombrosas, mas quando o assunto mudava e eles falavam em trava-língua, dávamos atenção. No dia seguinte eu e meus irmãos ficávamos imitando e soletrando letra por letra. Quando tínhamos dúvidas, minha mãe nos ajudava e contava novos versos, cantigas de roda
Toda esta digressão que fiz ajudou-me a compreender o texto “A importância do ato de ler”, proposto para este exercício de leitura e escrita, em que aprendi com Paulo Freire que a “leitura do mundo” incorpora a realidade cultural das pessoas que passam seus conhecimentos, por meio de um círculo de conversa. Assim vivenciamos nossa realidade e cultura, enriquecendo nosso repertório. Para mim, esses foram momentos inesquecíveis de minha infância.
Aprendi com os estudos de gêneros textuais que realizamos até aqui que, ao iniciar a criança no mundo de livros, é preciso familiarizá-los com o texto escrito, passando por diversos gêneros, tramas, estilos de textos, que também devem abarcar a realidade cultural, social e natural, mediada pelo uso das demais linguagens e formas de interação da criança com a natureza e sua cultura.
A leitura deve ser trabalhada diariamente, na perspectiva de que uma leitura puxa a outra e uma conversa sobre um livro sempre estimula a leitura de outro. Na Educação Infantil, a leitura deve incluir práticas culturais, experiências, prazeres, alimentos para o imaginário e forma de interação com o outro, além de portar uma infinidade de sentidos e significados, que devem ser sempre compartilhados.
Neste curso de Pedagogia PARFOR, enfrentando meus obstáculos, percebi que não existe bom professor sem atualização, pois necessitamos do conhecimentos didático-metodológicos para ensinar a todos os alunos. Por esse motivo, para trabalhar na área da Educação tem que estar sempre se atualizando com formação continuada. E saber que não existe disciplina sem amor, e nem professor sem coração para entender que ser profissional é dominar o que faz e mais ainda ser humano. A desumanidade nos tira a visão da observação e, através das observações, conforme nos explica Madalena Freire, descobrimos a verdadeira personalidade daquele aluno que é quase invisível em sala de aula.
Aprendi, com Paulo Freire, que não existe prática sem teoria e nem teoria sem práticas, ambas caminham juntas. A teoria é a base e alicerce de tudo, é a vida, o ar, o vento, palavras que nos fortalecem e alimentam com saberes diferenciados, num círculo de cultura.
No terceiro semestre do curso, trabalhamos a disciplina EJA Jovens e adultos. A professora nos pediu um trabalho em grupo de leitura de somente um livro para abordar conceitos fundamentais para a nossa prática pedagógica. Para minha surpresa, chegando a casa, percebi que era o livro que havia comprado na rodoviária de Tietê, na cidade de São Paulo: Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire. Comprei um tesouro sem imaginar que, graças a ele, estava transformando meu sonho em realidade.
Agora, novamente, diante do exercício “A carta em alemão”, tivemos um impacto diante do novo, a interação entre os grupos de alunos facilitou o entendimento. A professora, por sua vez, esforçou-se muito para deixar claros os objetivos, conteúdos e métodos para o desenvolvimento da didática do ensino da língua portuguesa. Segundo Madalena Freire, o professor em formação deve ter o olhar curioso, incansável, diante do novo, enfrentando seus conflitos. E isso foi o que nos propôs a professora Rosana, de forma sistematizada.
Desse modo, fica mais fácil percebemos que a aprendizagem não é um processo individual e depende do esforço de quem aprende. Aprendizagem é um processo coletivo que envolve tanto as ações do educando quanto as ações do educador. Para Madalena Freire, o professor deve dispor de diferentes recursos teórico-metodológicos e de conhecimento amplo que facilitam tanto o trabalho do professor como a aprendizagem do aluno que, por seu turno, pode experimentar o conteúdo aprendido de maneiras diferentes.
A aprendizagem tem necessidades de experiências, possibilitando o desenvolvimento da paixão pela sala de aula no dia a dia, sendo um desafio saber ensinar com emoções presentes na elaboração do conhecimento. Sinto esta professora na nossa aula de Conteúdos e Metodologia de Língua Portuguesa.
Concluí que a metodologia utilizada no exercício da “carta em alemão” produziu aprendizagem para nós, bem como foi possível observar que, sempre que a professora colocar o aluno diante do novo, haverá consequências diretas e isso a levará a selecionar os métodos e os procedimentos de ensino mais apropriados.
Ainda sobre esta atividade proposta pela professora Rosana, foi possível compreender que o processo de aprender não está relacionado apenas com as capacidades intelectuais de uma forma mais ampla. O processo de aprender envolve, para além das nossas habilidades cognitivas, as relações interpessoais entre professor e aluno e, consequentemente, a relação que se constrói com o conhecimento. 
Para Paulo Freire, é importante a socialização de conhecimentos por meio do diálogo. Isso justifica trabalharmos em grupo na sala de aula. Para Madalena Freire, é importante o professor ter seus métodos de forma clara e organizada e em constante reflexão. Isso justiça o exercício de reflexão escrita sobre a leitura e a escrita que estamos fazendo. Por fim, ambos os autores consideram a relação didática entre educador e educando essencial para uma formação crítica do cidadão e cidadã. E isso estamos aprendendo em nosso curso.

Izildinha de Oliveira Santos (7º semestre Pedagogia PARFOR)

Aprendendo a ler e a escrever


Na nossa primeira aula de Conteúdos e Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa II, a professora nos surpreendeu com uma atividade inusitada. Solicitou que, em grupo, realizássemos a leitura de um texto, de modo que identificássemos o gênero textual e algumas informações do conteúdo, uma vez que o mesmo estava escrito em outra língua.
Durante o primeiro momento, tentamos decifrar em que idioma estava escrito, descobrimos que era alemão. Depois, analisamos o texto e começamos a procurar as palavras mais próximas do nosso idioma, a Língua Portuguesa, grifando-as. Gostamos do exercício, pois tivemos êxito na "leitura", conseguimos mais ou menos saber o que estava escrito e deciframos algumas palavras, mas ler não é somente decifrar e decodificar, para ler, realmente, precisaríamos compreender o texto todo.
De acordo com Paulo Freire, no texto “A importância do ator de ler”, ler é antes de tudo uma interpretação do mundo em que se vive. E, com essa atividade realizada em sala de aula, ficou claro esse pensar, pois, mesmo sem saber alemão, conseguimos decifrar o gênero textual – uma carta. Pela sua estrutura e formatação, conseguimos, de alguma forma, realizar uma leitura superficial.
Mesmo conseguindo estar inseridos na atividade para realizarmos a leitura e compreender, precisaríamos aprofundar-nos no idioma, e praticar a leitura diária, como aconteceu em nossa época de alfabetização e acontece no nosso dia a dia para aperfeiçoarmos nosso vocabulário.
É importante ressaltar a importância da prática de leitura na escola, pois na minha época de escola, a leitura era somente aquela da cartilha, em que se partia do treino da família silábica, montando e desmontando palavras, seguindo os modelos, formando outras palavras e, em seguida, a formação de frases curtas. Desse modo, não se construía nada, somente realizávamos cópia. Sobre esse aspecto, Paulo Freire nos explica que a alfabetização é um ato criador, no qual o educando apreende criticamente a necessidade de aprender a ler e a escrever, preparando-se para ser o agente dessa aprendizagem
Com base em Paulo Freire, podemos compreender que o professor precisa deixar de ler para o aluno e começar a ler junto com o aluno. Trazer para o dia a dia não somente as leituras que acha importante, mas levar em conta o que os alunos gostam de ler. Os alunos não devem somente ler por obrigação, mas temos que estimular a leitura pelo prazer, evitando que só leiam para fazer provas ou para fazer atividades impostas pelo professor.
Apoiada em Paulo Freire, posso afirmar que, por meio da leitura, formamos cidadãos críticos, capazes de tomar decisões, promovendo transformações no cotidiano.
Analisando a atividade de leitura e escrita da carta em alemão, compreendi que a intenção da atividade não foi somente sabermos em que língua estava o texto, tampouco o que estava ali escrito. A atividade ia além, a fim de fazer com que entendêssemos que o ato de ler ou escrever é refletir sobre nossas produções, e que há um aprendizado quando você escreve algo pela primeira vez e, conforme é solicitado para reler e reescrever, você vai conseguindo avaliar o quanto pode melhorar.
Escrever é uma atividade que vai construindo um saber, de acordo com Madalena Freire, quando escrevemos desenvolvemos nossa capacidade reflexiva sobre o que sabemos e o que ainda não dominamos. “Escrever, registrar, refletir não é fácil, dá muito medo, provoca dores e até pesadelo”, conforme enfatiza Madalena Freire.
E termino por aqui, dizendo que gostei da atividade, aprendi muito com ela, mas concordo com a citação que fiz de Madalena Freire.

Alessandra Bárbara Pontes (7º semestre Pedagogia PARFOR)

O cuidar que me levou ao Magistério: refletindo sobre minha leitura de mundo

A professora Rosana propôs, na primeira aula de Conteúdos e Metodologia do Ensino da Língua Portuguesa, um desafio que surpreendeu a todos: interpretar um texto em outro idioma, algo não tão comum na nossa vida diária. Como fiz essa leitura em casa, minha visão foi unitária, mas pude usar do meu jeito curioso de ser para resolver aquele desafio. 
Quando iniciei a leitura dessa atividade, pude perceber que se tratava de um currículo para concorrência de uma vaga de trabalho. A princípio, fui tentando linha por linha decifrar algo, mesmo não compreendendo a língua que ali estava escrita.
Na primeira linha, visualizei e entendi que fosse o endereço do destinatário, seguindo o nome para quem o currículo estava sendo enviado aos cuidados, e dali em diante analisei que o candidato estava expondo toda sua trajetória profissional.
Li e reli umas três vezes e cheguei a essa conclusão acima, percebi que se tivesse um hábito de ler muito mais constante em minha vida, compreenderia mais coisas, mesmo estando em outro idioma. Após fazer essa minha observação, usei o computador como ferramenta para matar minha curiosidade e digitei tudo já com o tradutor ao lado, e me surpreendi quando vi que minha interpretação condizia com o que estava escrito após ter verificado com a tradução.
Penso que se fosse me dado o mesmo trabalho há trinta anos, quando cursava o fundamental, me sentiria acuada, com medo e sem muito a dizer sobre o desafio a minha frente, pois na minha infância e adolescência não tive privilégios e meus trabalhos eram feitos com consultas naquelas enciclopédias que minha mãe conseguiu comprar a muito custo, em várias prestações a pagar.
O desafio dessa leitura significa para mim muito por ter hoje a oportunidade de poder ler, escrever, interpretar, analisar, observar e conseguir decifrar alguma coisa. Concluir essa tarefa me fez uma pessoa melhor, sabendo que sou capaz de algo novo na minha vida, a partir de agora nunca mais irei me sentir incapaz, quero cada vez mais me desafiar.
Após ter feito a leitura do texto “A importância do ato de ler”, de Paulo Freire, minha mente se abriu ainda mais para a atividade da “carta em alemão”, porque reviveu lembranças de minha vida, infância, sofrimentos e felicidades que só eu sei o que senti e passei.
Hoje, me vejo quase concluindo o ensino superior e, às vezes, sem acreditar que cheguei até aqui depois de tudo que passei. Quando criança, cresci em uma casa de madeira, onde o único lugar feito de tijolo era o quarto, a sala e a cozinha simples com frestas, por onde passava claridade e escuridão, quem quisesse podia até espiar que conseguiria ver nitidamente tudo lá dentro. O banheiro não existia e sim um quadrado, onde só cabia uma pessoa e um balde. O quintal onde morava era grande e tinha quatro casas, cada uma feita do seu jeito e condições que cada familiar podia, muitas árvores que me encantavam quando davam frutos deliciosos e eu podia degustá-los, sem contar também com galos, galinhas, pintinhos, patos e marrecos que me rodeavam quando eu brincava na terra. Era uma criança feliz, a caçula de três irmãos, esses mais velhos o menino 10 anos e a menina 8 anos. Essa irmã, desde essa idade, me cuidou com muito apreço. Minha mãe trabalhava e meu pai, com um trabalho mais flexível, administra esses irmãos em casa, mesmo sendo pai de coração deles, criou-os até a fase adulta.
Mesmo tendo nascido de um casal e família pobres, fui muito bem tratada e criada, sempre limpinha, bem penteada, alimentada e com toda a liberdade de brincar, minhas molecagem me deixaram algumas marcas, como sentar na beirada de um tanque no chão e não dar ouvidos ao papai quando falou: “você vai se machucar”. Instantes depois, o tanque virou do meu pé e, conclusão, dedão do pé esquerdo quebrado. Assim, fiquei até a chegada da mamãe do serviço, porque os assuntos mais cabeludos meu pai não resolvia. Em um outro momento de minha infância, uma tia que morava no mesmo quintal quis se desfazer de um colchão velho, mas antes de queimá-lo, porque naquela época era assim que se ficava livre de coisas que não se queria mais. Resolveu que a criançada poderia brincar, pular ali em cima, fiquei eufórica para me juntar aos demais, porém minha mãe disse que não era para eu ir, desobedeci e, no primeiro pulo, cortei minha perna esquerda com um vaso sanitário quebrado que ali estava escondido em meio a tanto mato. Levei bastante chinelada mesmo com a perna ensanguentada e assim fui levada por ela mesma para o Pronto Socorro que era bem próximo, ali fui atendida rápido, anestesiada e uma sutura bem feita que em quinze dias estava recuperada. Mas, enquanto me restabelecia, desfrutei de bastante mordomia, mais ainda das que já tinha. Sempre fui muito esperta, o bastante para observar o que acontecia ao redor.
Alguns fatos marcaram muito minha mente e até hoje lembro com tristeza. Meu irmão, quando se viu adolescente, quase homem, não aceitava o fato de ser criado por outro homem que escolhia trabalho. Trabalho esse que era no porto, por isso podia escolher quando queria ir. Esse meu irmão começou a tratar meu pai com indiferença, até surgirem as brigas, e eu pequena tinha que correr e chamar algum amigo ou primo para desapartar. Esse irmão parecia muito revoltado com a vida que ele crescera, mas eu era a única pessoa que ele tratava com muito amor e carinho. 
Como Paulo Freire cita que o chão de seu quintal foi sua lousa, o meu foi minha leitura de mundo, ali vi, ouvi coisas que não eram de grande valia para minha infância e outras que me serviriam para o futuro. O cuidar e a atenção que todos os meus familiares me davam, dentro do que lhes cabia, foi extremamente importante para o meu crescimento como pessoa.
Quando cheguei aos cinco anos, no Parque Infantil, como assim era chamado na minha época, era tímida, me sentia sozinha e chorava muito. Lembro que a minha sala era de cor vermelha e o nome da tia era Cláudia, era um amor, mas pouco comparecia, pois tinha grandes crises de bronquite e assim sempre tinha uma tia substituta diferente, olha que essa situação já acontecia em 1980. Nesse período ali, tive meus primeiros ensinamentos de coordenação motora, em que algo me colocava novamente entristecida, pois era canhota e eu me sentia diferente, mas superei. Também no parquinho conheci minha primeira amiga, pessoa que estimo até hoje e que também optou por ser educadora como eu. No ano seguinte, todos seriam encaminhados para uma escola da prefeitura, mais um baque: não sobrou vaga para mim.
Meu tio me deu a chance de ingressar no Colégio dos Estivadores de Santos, onde só filho de estivadores não era pagante e meu pai, nessa época, ainda não tinha adquirido essa carteira para que eu tivesse esse privilégio.
Bom, ali conheci tia Charleaux, senhora meiga, atenciosa, cariosa e dedicada ao que fazia, ensinar a ler e escrever. Era tudo organizado, mesa forrada com plástico quadriculado azul. Naquele momento, iniciava meu aprendizado de ler e escrever, um mundo novo que estava a minha frente para que eu o enfrentasse e me tornasse o que sou hoje, uma educadora em busca de mais aprendizado para que possa repassá-lo com êxito. Aprendi o BA BE BI BO BU da cartilha. O ensino era bastante rigoroso, mas com a visão de mundo de hoje, compreendo que fui ensinada a decorar o que me era passado. O meu medo de tirar nota vermelha era absurdo, não fiz uso de muita leitura paralela, ou seja, como explica Paulo Freire, a escola não fez a devida conexão com minha leitura de mundo. Isso hoje me faz muita falta, ao contrário de Paulo Freire, que conseguia fazer a leitura da palavra, do texto e do contexto. Neste período, minha irmã havia optado pelo curso de Magistério e eu sempre estava com ela, quando elaborava e confeccionava trabalhos, era também sempre usada como modelo para trabalhos, em que precisava da escrita e respostas de crianças da minha faixa etária. Assim, fui me identificando com a atenção com que se era dada à educação, pela minha irmã e sua turma.
Eis que, em 1990, ingressei no curso de Magistério, no conhecidíssimo Colégio Canadá. Os tempos já eram outros, mas dentro de mim tinha ficado a imagem de que educar, cuidar, ensinar era muito bom. Nesse período, pude aprender a ensinar, aprender a conviver com outras pessoas que nunca tinha visto, mas que tinham o mesmo ideal, como diz Madalena Freire, precisamos ter dentro da gente um pouco de artista, espectador, ouvinte, observador, usar muito do diálogo para que as informações sejam trocadas e suas ideias também aceitas.
Segui minha formação no Magistério, com êxito, porém levei oito anos para começar a pôr em prática tudo o que estava dentro de mim. Foi em fevereiro de 2000, que iniciei minhas funções de cuidar das crianças, em uma creche em Santos. Eram oitenta no total e eu e mais uma para dar banho, trocar, servir o lanche. Depois de seis meses, foi me dada a chance de ter uma sala de maternal, crianças com dois anos, que desafio! Ficaram as lembranças, mas se tivesse os registros comigo, como Madalena Freire cita hoje, seria possível eu estar levantando algumas questões que naquele tempo não tinha respostas imediatas e usava a imaginação para cumprir minhas obrigações, para com aquelas crianças e entregá-las como chegaram. Todo o dia tinha que anotar em um caderno como tinha sido o meu dia, se tinha dado conta da atividade proposta. Esses registros, no momento, foram importantes, mas não ficaram comigo, eram relatórios de uso interno na creche. Fiquei ali por quatro anos e, quando saí, era outra pessoa com propriedade no que estava fazendo e exercendo.
Segui minha caminhada, indo para o Município de Praia Grande. Cheguei confiante no meu trabalho que já vinha fazendo. Fui muito bem acolhida, as orientações já tinham suas diferenças, pois estava em outra cidade. Ali a diretora era bastante presente, coordenadora, e também uma assistente da Secretaria da Educação quinzenalmente estava lá para verificar o meu andamento. Eu gostava muito e sempre era bem elogiada, os registros também eram internos, o meu lado artista, crítico, e de refletir sobre as coisas ficaram na minha memória e não em linhas, como Madalena Freire coloca ser a melhor forma de evoluir em sua própria construção de educador. Ali exerci meus trabalhos por 8 anos. Parei, fiquei doente, após 3 anos, retornei já no município de São Vicente. Outra realidade, mas me propus enfrentar e assim o fiz durante 1 ano e 5 meses, fiz novas descobertas, com a mais marcante: um menino autista, uma deficiência que o deixava de canto e assim ele ali vivia, mesmo sem me oferecerem, peguei esse desafio para mim e nesse período o avanço dele foi notado por todos. E, quando me perguntaram, “você tem especialização em educação especial”, eu falei não. A vontade de cuidar vem de dentro, a busca do desconhecimento me instiga.
Bom, mas como tudo na vida passa, esse menino passou na minha vida e me deixou marcas que só eu sei, mas que sem orientações também não foram registradas. Vim para Santos, e agora em uma escola particular no ensino fundamental, Deus me coloca à prova mais uma vez, e eis que surge o Fernando um menino com paralisia cerebral, cadeirante, muito inteligente, mas com suas limitações motoras.
Sem experiência nenhuma, só a vontade no coração de ajudar aquele menino a conseguir alcançar a máximo que ele pudesse, mesmo que isso me deixasse na lona. E assim caminhamos durante 2 anos juntos e tenho certeza que marquei sua vida, mas ele marcou muito mais a minha, hoje somos amigos, a forma com que eu tinha que trabalhar com ele, eu mesma inventava, criava, e realizávamos tarefas que impressionavam, a dificuldade na fala que ele trazia consigo bloqueavam muitos que com eles já estavam há anos, mas, assim que nos conhecemos, não tive dúvidas, aquele menino iria fazer a diferença na minha vida.
E aqui eu cheguei, dividindo minha vida, tentando a cada dia ser melhor, e obter mais conhecimentos para que esse cuidar, esse ensinar, esse olhar possam enfrentar e derrubar barreiras.
Finalizo minhas reflexões, com a intenção de ter conectado a atividade de leitura da “carta em alemão” com minha leitura de mundo, conforme Paulo Freire, bem como exercitado o meu registro reflexivo, conforme Madalena Freire.

Gisele Aparecida Madureira (7º semestre Pedagogia PARFOR)

Desvendando o desconhecido: uma aventura metodológica

Na nossa primeira aula de Conteúdos e Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa II, a professora nos surpreendeu com uma atividade inusitada. Esta atividade foi uma carta em alemão.
Ao iniciar a leitura do texto em alemão, a minha primeira reação foi de total desespero, por não ter o domínio da língua em que estava escrito. O que me levou a uma reflexão profunda, buscando a compreensão dos conteúdos escritos. Minhas colegas de grupo e eu procuramos desenvolver a atividade de acordo com nossas habilidades leitoras: analisamos e buscamos informações de todas formas possíveis
Coloquei-me no lugar dos meus alunos diante do novo, quando não sabem ler e escrever convencionalmente, quando apenas as imagens fazem parte de seus mundos, e quando a dificuldade de tentar desvendar o desconhecido pode levá-los a um sentimento de fracasso. Ao ler “A importância do ato de ler”, de Paulo Freire, compreendi que “linguagem e realidade se prendem dinamicamente, um não existe sem o outro”.
Portanto, uma carta em alemão não faz parte da minha realidade, bem como textos escritos não fazem parte da realidade daqueles que ainda não sabem ler e escrever. Mesmo assim, ao tentar ler a carta em alemão, explorei a possibilidade que estava disponível, como o formato do papel, a forma como o texto estava organizado, analisando e buscando respostas. Citando Paulo Freire, “a leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade daquela”, compreendi que as estratégias que utilizei para “ler” a carta faziam parte do meu conhecimento de mundo, ou seja, sabia que textos são escritos em papel, que o gênero textual era de uma carta, que a língua era o alemão.
Essa compreensão não se deu isoladamente, pois estava trabalhando em grupo e com a ajuda de outras pessoas fica muito mais fácil. Mais uma vez, Paulo Freire nos explica que ninguém ensina ninguém, mas aprendemos juntos, mediatizados pelo mundo.
Esta experiência remeteu-me a um período na minha infância, cuja sensação já tinha esquecido. Foi como se estivesse no primeiro ano da escola outra vez, quando eu não sabia ler e escrever, tentando decifrar aqueles códigos que meu cérebro ainda não sabia interpretar, da minha professora tentando me inserir no mundo da leitura e da escrita, dos meus colegas que dividiam comigo as mesmas inquietações da infância, dos amigos do bairro em que eu morava, das vezes em que junto com minhas três irmãs brincávamos no pequeno sítio dos meus pais. Isso me levou a um mundo de lembranças que ficaram muito tempo esquecidas em um lugarzinho guardado dentro de mim, e os sentimentos de medo, angústia, alegria e anseios afloraram diante do desconhecido.
Nas palavras de Paulo Freire, “os textos, as palavras e as letras, do mundo, do meu contexto”, ou seja, o autor fala da compreensão crítica da importância do ato de ler, constituído de uma curiosidade natural de decifrar o desconhecido, cuja interpretação depende totalmente de um conhecimento que parte das experiências e das palavras conhecidas antes de se aprender a ler e a escrever. Por isso, Paulo Freire defende que a alfabetização seja realizada por meio de palavras que tenham sentido para o aluno, escolhidas com cuidado pelo alfabetizador. Esse é o conceito de “palavra geradora”. A palavra geradora é uma palavra do universo do alfabetizando que, após ser discutida com seus colegas de classe, será utilizada para a iniciação à escrita.
Retomando o relato sobre o exercício de “ler” a carta em alemão, posso testemunhar, com base em Freire, que existe alegria em conseguir entender o texto, saber o que aquele amontoado de letras quer dizer, porque a leitura pode ser comparada com uma conversa da escrita com o leitor. Senti alegria quando compreendi o significado de algumas palavras da carta, quando fiz uma leitura, mesmo que superficial, e percebi que posso ser protagonista do meu conhecimento. Assim, pude entender que não é suficiente uma simples interpretação do texto, mas é preciso realizar uma leitura complexa.
Elaborando uma reflexão sobre a minha prática pedagógica atual e a necessidade de oferecer materiais diversificados para os alunos, para que analisem e reflitam sobre cada atividade, bem como realizem uma leitura prazerosa, de acordo com Paulo Freire, pude compreender que o conhecimento de mundo antecede a escrita, e quando o professor faz uma junção de todo o contexto em que o aluno está inserido, a escrita flui naturalmente. O aluno constrói uma ponte para seus conhecimentos, a partir de sua realidade, assim, o conhecimento se torna mais significativo. Conforme Paulo Freire, “a alfabetização é a criação ou montagem da expressão escrita da expressão oral”, por isso, é preciso dar oportunidade para o aluno se expressar, criar, imaginar, buscando algo que faça sentido para o seu desenvolvimento.
Contudo, ao analisar a atividade do texto em alemão, pude perceber com clareza a proposta que foi oferecida. A princípio, a atividade foi planejada para o desenvolvimento do pensamento reflexivo. Na tarefa 1, compreendi a necessidade do trabalho em grupo. A interação com o outro, conhecendo sua linha de pensamento, fez com que eu compreendesse melhor o texto.
Essa compreensão também foi possível devido à leitura do texto da Madalena Freire, em seu livro Observação, registro, reflexão. A autora nos fala que com “o trabalho em grupo coordenado por um educador, aprendemos a ler construindo novas hipóteses na interação com o outro. E, ao confrontar com as hipóteses dos outros, aprendemos a refletir”. Refletir sobre a nossa prática pedagógica levando a criar atividades que proporcionem maior interação dos alunos.
Devido a esse momento de interação em sala de aula, houve a oportunidade de entender o que estava escrito, portanto, pudemos criar uma compreensão juntos. Essa criação é necessária para um bom andamento das aulas, segundo a autora Madalena Freire, e é tão importante para o processo de ensino/aprendizagem que a autora relaciona com a essência da vida. Madalena Freire nos fala que esse momento faz parte da vida do educador, de que todos os dias ele lida com o imaginário dos alunos “assim como o próprio viver, o criar é um processo existencial”, buscando significados para a sua criação, adaptando-as para a sua realidade. Diante destas informações, há a necessidade de registrar estas criações, com o intuito de acompanhar o desenvolvimento dos alunos. É imprescindível que o professor aprenda a registrar reflexivamente suas atividades pedagógicas, porque, sem esses registros, parte desse processo ficaria comprometido. Nas palavras de Madalena Freire (1996, p. 06 ): "Este aprendizado do registro é o mais poderoso instrumento na construção da consciência pedagógica e política do educador, pois quando registramos tentamos guardar, prender fragmentos do tempo vivido que nos é significativo, para mantê-lo vivo".
A partir da reflexão que realizei sobre a atividade com a carta em alemão, com base nas leituras de Paulo Freire e Madalena Freire, compreendi que uma simples atividade que a professora prepara precisa estar embasada pedagogicamente e possuir aspectos didático-metodológicos sugeridos por autores e teóricos da educação. Assim, pude observar que as teorias que podem embasar esta atividade são:
· Sociointeracismo – porque foi dada a oportunidade de criação do aluno, interagindo com o grupo, discutindo sobre o que poderia ser aquela atividade, os alunos construíram seus conhecimentos, a partir do material que puderam desvendar com suas habilidades de leitura.
· Gêneros textuais – porque o texto foi uma carta, que embora tenha sido escrita na língua alemã, era um gênero de fácil identificação pelo grupo e isso ajudou no exercício de leitura. Também foi solicitada uma “síntese reflexiva” como produção textual e isso foi um desafio para todos nós, promovendo uma nova aprendizagem do que é "síntese" e do que é "reflexiva".
· Letramento – porque foi feita uma reflexão sobre a leitura e a escrita para, com isso, entendermos do que se tratava a atividade e nos levarmos a uma melhor compreensão do texto, bem como avançamos em nosso nível de letramento, no que se refere à leitura e ao diálogo com os textos científicos de Paulo Freire e de Madalena Freire.
A proposta desta atividade se justifica diante da necessidade de formar educadores capazes de refletir sobre o que leem, de modo que haja um diálogo com o texto.
Ao me deparar com esta aventura de desvendar o desconhecido, e, através deste desconhecido, eu aprendi a ler, mas não uma leitura convencional e sim uma leitura com olhos da alma, por meio dos quais eu pude enxergar a leitura mais pura do ser humano, aquela que já tinha esquecido, aquela que fez aflorar a alegria. Quando consegui juntar as palavras, sentir aquelas emoções contidas diante do novo, que no caso foi uma carta em alemão, cuja linguagem não pertence ao meu convívio social, compreendi que existem meios diferentes de entender o texto, possibilitando várias interpretações e como nós educadores devemos elaborar nossas aulas, com uma visão apurada diante da necessidade dos alunos das escolas atuais.
Este processo é uma verdadeira aventura metodológica, na qual aprendemos a desempenhar melhor nossas aulas, buscando conceitos e analisando a diversidade plural existente em nossa cultura, de modo que contribuam para um desenvolvimento integral do indivíduo, tendo a consciência do quanto é importante para o educador esta troca de conhecimento. Embora compartilhemos a mesma língua, pertençamos a mesma nação, somos diferentes em nossas crenças, em nossas religiões, nossos gostos. Estas diferenças são o que nos tornam seres únicos diante da sociedade.

Claudenice Gomes (7º semestre de Pedagogia PARFOR)